sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

O amor tem dessas coisas...

"Minha segunda namorada foi um grande amor da minha vida. Eu tinha 25 anos e tudo foi lindo, a mudança de paixão para o amor, o companheirismo. Porém, a minha personalidade instável quanto aos defeitos do tempo me exigiram novidades. Encontrei paixões, viagens, possibilidades. Após algum tempo, ela terminou comigo, mas não acreditei, não me abalei muito, pois sabia do nosso amor. Ser solteiro era um sonho antigo e seria realizado. Não foi assim. A solidão bateu com força, e a sensação de vazio trouxe angústia e ansiedade. Não consegui me relacionar, as oportunidades diminuíram e as garotas não eram interessantes. Só agora me vi pronto para ela, para casar, ter filhos. Procurei. E ela já estava com outro namorado. Sinto uma saudade absurda e um grande arrependimento."

Quando Carlos terminou com Júlia, teve a penosa sensação de ter perdido o amor da sua vida. Sem recursos para trazê-la de volta, podemos apenas rever os fatos e refletir sobre eles, sem certeza de aliviar sua angústia. A primeira questão é saber quando a perdeu. Foi há um ano, quando se separou, com relativo alívio, para recuperar sua solteirice? Ou foi no mês passado, quando lhe apresentou a frustada proposta de casamento?
Carlos argumenta que tudo foi consequência de se reconhecer como pessoa instável. Afastou-se preventivamente, para não expô-la às turbulências do seu humor flutuante. Foi, sem dúvida, uma atitude correta, porém, considerando a sequência dos fatos, é possível que tenha se afastado convencido de que Júlia o estaria esperando. Não imaginou que ela viesse a seguir outros rumos, conhecer outros homens, ou seja, avaliou a situação a partir das próprias convicções. Separou-se esperando que, passando um tempo, voltaria, satisfeito e maduro para retomar a relação. É por isso que acredito que, para Carlos, a relação não acabou no ano passado, mas recentemente, quando Júlia, já comprometida, com outro namoro, não aceitou a sua proposta.
Foi nesse momento que Carlos entendeu que ela tomou seu próprio rumo e, de forma prática, mostrou-lhe que não era o único homem do planeta. Foi nesse dia que se instalou o verdadeiro luto, quando a mulher infantil e passiva deu sinais de independência. É precisamente aí que Carlos vai descrevê-la como a única mulher capaz de acabar com sua solidão e tristeza.
Apresso-me em fazer constar que Carlos não é o único nem o primeiro ser humano que comete esse engano. Com enorme frequência, acredita-se que a pessoa abandonada vai conservar um amor incondicional e eterno. Quando essa parte para uma nova história, quem abandona sofre um curioso processo, neste caso, uma violenta ruptura entre a Júlia imaginária e a real. A marionete, sempre obediente, corta as cordas que a prendem e, para o espanto geral, ganha vida e escreve uma nova história de amor, melhor ou pior, nunca igual.
É então que é deflagrada uma paixão incontrolável, como Carlos sentiu na carne, confirmando angustiado que começou a amá-la no dia em que a perdeu.
Esse dramático processo nem sempre termina assim. Com frequência, aceita outra rodada, que só será possível quando Carlos recuperar o bom humor. Então, talvez num fim de noite, vai respirar fundo, olhar ao seu redor e descobrir, bem perto, uma bela mulher que, adivinhando sua tristeza, sorri com o rosto e os olhos. Carlos se aproximará dela e começarão a conversar. Talvez riam juntos, assistam a um filme e, outra vez, pela primeira vez, se amarão...
Então Júlia, que o segue de soslaio e sorridente, ficará séria e, apesar de comprometida, reviverá as boas lembranças e então... Para não criar falsas expectativas, paramos aqui nosso relato assinalado, em letras bem visíveis, que é fácil amar o que se perde, difícil é amar o que se tem. Carlos que o diga.


(Alberto Goldin - Revista "O Globo")

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